Como fazer uma vida
Martha Medeiros
Lembra do Bristol, aquela salinha de cinema que ficava em cima do Baltimore? Bons tempos. Foi lá que assisti a quase todos os filmes do Godard, no início dos anos 80. Alguns achei xarope, mas seria preciso revê-los hoje para tirar a dúvida se a xarope não era eu. No entanto, lembro de ter caído de amores por Acossado, um filme que virou cult no mundo inteiro.
Foi com interesse, portanto, que li a entrevista que Godard deu para nosso conterrâneo Fernando Eichenberg na última edição da revista Bravo. Suas revelações oscilam entre a genialidade e a ingenuidade. Em certo momento, ele diz que um casal pode ser feliz mesmo não gostando do mesmo tipo de música, mas que isso é impossível se não gostarem do mesmo tipo de filme. E exemplifica: “Se eu gosto de Beethoven e a outra pessoa de Céline Dion, podemos conviver, mas será impossível se a outra pessoa não gostar de Hitchcock”. Bebeu. Eu não poderia nem mesmo pegar uma carona com alguém que ouvisse Céline Dion, quanto mais ser feliz com ela.
Mas vale a pena comentar o melhor trecho da entrevista, que é quando ele ensina como fazer um filme. “Sei lá, tente começar por contar seu dia, com a ajuda de um papel e um lápis. Conte de maneira diferente daquela que a polícia ou um funcionário público faria. Tente dizer algo diferente. Bom, você acordou, tomou seu café... Mas você sabe que não há somente isso. Tente saber o que é este ‘não há somente isso’”.
Godard ensinou como fazer um filme e, de quebra, como viver. Não seria adorável se nossa rotina não fosse tão insossa, se nossos dias não fossem tão repetitivos, se nossa vida desse um filme? Pois tudo o que temos que fazer é trazer à tona aquilo que não está aparente, aquilo que nos move e emociona, aquilo que está por trás de nossas ações. Já fiz citações demais por hoje, mas não há como esquecer a frase de Katherine Mansfield: “A vida não pode ser apenas um hábito”. Hoje você acordou, tomou café... mas no que estava pensando, do que estava com medo, quais eram seus planos inconfessáveis para esse dia que corre?
Qualquer ato banal está impregnado de sentimento. Há mil maneiras de se ver um transeunte na rua, um operário trabalhando numa obra, um casal se beijando na calçada, uma mulher limpando o vidro de uma janela. Em tudo há alguma poesia ou algum humor, em tudo há abnegação ou desfrute, singeleza ou dor. Mastigar o pão, olhar para o relógio, entrar no ônibus, bater o ponto. Não há somente isso.
Domingo, 13 de outubro de 2002.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.